O QUE NÓS SABEMOS SOBRE O AMANHÃ?

Por Matheus Zani

 Olhar para o passado para ver o futuro. Talvez isso fosse verdade décadas atrás. A verdade é: não sabemos nada ou quase nada sobre o amanhã. O mais próximo que chegamos do amanhã é nos infinitos modelos matemáticos com suas infinitas premissas anteriormente adotadas para que a conta se feche no final. Mas o que o amanhã tem a ver com agricultura? Tudo!

Agricultura é o amanhã. Mas se não sabemos nada ou quase nada sobre o futuro, o quanto sabemos sobre agricultura? Um paradoxo.

O passado pode ensinar, mas não pode prever. O passado é estático em relação ao dinâmico presente. E o futuro é mais próximo do presente do que do passado. Assim o futuro exigirá mais, cada vez mais.  Neste jogo nada divertido, a agricultura será responsável por alimentar mais de 9 bilhões de pessoas. E como fazer isso? Olhando para o passado que não será.

Então como faremos agricultura em futuro dinâmico que não sabemos quase nada? Fácil. Inovando!

Inovação. Será o fator determinante da vez. Somente com inovação dentro e fora do campo, que o setor será capaz de produzir alimentos necessários para atender uma sociedade sedenta por carboidratos e fibras. Não é fácil definir o que é inovação, mas também não é difícil. Pode ser com 5, 10 palavras ou com uma história. Eu prefiro pensar que inovação seja a arte de fazer as mesmas coisas só que ao avesso. Não precisamos inventar novas rodas. Sabemos que rodas são boas. Precisamos de novos pneus, de novos aros, de novos materiais. Isso pode ser aplicado a tudo. Na agricultura isso acontece de forma fantástica! Vespas no lugar da velha bomba com veneno. GPS no lugar do teodolito. Fibra de coco no lugar de solo. Microchips no lugar do ferrete. E assim vamos inovando.

Peraí, se o presente dinâmico de hoje é o futuro do passado, como chegamos até aqui?  Fácil. Inovando. Talvez disfarçada com outro nome ou definição de 5 ou 10 palavras, mas com a mesma essência. Concluímos que estamos usando a mesma receita que o passado usou e que saberemos muito mais do amanhã olhando para o ontem.  Putz. Toda a minha tese desmoronou e o meu texto está equivocado. Não importa. O que realmente importa é se as inovações de hoje e de amanhã serão menos predatórias e mais sustentáveis do que foram no passado.

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Matheus Zani – Engenheiro Agrícola pela UNICAMP. Trabalha com crédito agrícola. Escreve sobre o mercado de commodities, crédito e política agrícola.

Sócio-Fundador da AgroTVM

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Água de chuva: Como aproveitá-la?

Por Thomaz Penteado

            Os últimos meses tem sido de muita especulação sobre como ficará a situação hídrica em nosso país daqui pra frente, principalmente nas regiões onde a falta é iminente. Obviamente que sendo a região sudeste a mais impactada no curto prazo e o estado de SP o mais populoso do país, isso toma maior atenção da mídia.

            As chuvas de fevereiro têm caído de forma generosa
por todo o país, com exceção de algumas poucas regiões (nordeste, extremo sul e Roraima) conforme Figura 1. O volume de chuva na casa dos 200 mm representa que estamos ao redor da média para a região sudeste nesta época do ano segundo o Cepagri.

Figura 1. Precipitação acumulada e média pluviométrica Fonte: Agritempo e Cepagri, 2015.
Figura 1. Precipitação acumulada e média pluviométrica
Fonte: Agritempo e Cepagri, 2015.

                  De qualquer maneira, a venda de caixas d’água tanto para uso doméstico quanto industrial vem atingindo recordes nunca antes vistos, chegando-se ao ponto de ter que encomendar o produto e esperar um tempo considerável para a instalação. Acontece que as pessoas estão pensando em si e não no coletivo. Ao instalar uma caixa d’água extra em sua residência, a pessoa estaria teoricamente garantindo o seu abastecimento e respectivo consumo de água. Mas de que serve isso se não há como atender a demanda na captação deste precioso recurso?

            Para resolver ou ao menos amenizar tal problema, podemos fazer uso de técnicas de coleta de água da chuva de baixo custo, que irão desafogar a rede de abastecimento e dar uma enorme contribuição coletiva ao meio ambiente. Tive o prazer de conhecer o Sr. Edison Urbano numa disciplina cursada na Unicamp onde o mesmo apresentou as técnicas de baixo custo desenvolvidas por ele próprio e difundidas de forma gratuita através de mini-cursos, palestras e website (http://www.sempresustentavel.com.br/). Sem mais prolongar o artigo, segue abaixo na Figura 2 um exemplo prático de como podemos fazer a captação e armazenamento desta água que possui muitos fins de utilização.

Figura 2. Aproveitamento de água de chuva Fonte: Edison Urbano, 2015.
Figura 2. Aproveitamento de água de chuva
Fonte: Edison Urbano, 2015.

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Thomaz Penteado  –  Engenheiro Agrícola e Mestrando em Irrigação e Drenagem pela FEAGRI/UNICAMP. Escreve sobre recursos hídricos, bioenergia e agricultura de precisão.

Crises afetam a demanda e rentabilidade do grão

Por Matheus Zani

Em constante exposição ao mercado internacional, o agronegócio há algum tempo deixou de se preocupar apenas com a produtividade das lavouras. A internacionalização do setor e o modelo de exportação adotado, faz com que a rentabilidade seja em função do desempenho dos países importadores.

O ano de 2015 iniciou-se em um novo ambiente caracterizado pelo declínio nas cotações do petróleo, pelo contínuo arrefecimento do crescimento do PIB da China e pela manutenção da política de austeridade na zona do euro. E, internamente, o País sofre com a crescente inflação e ajuste fiscal.

A safra 2014/15, que está sendo colhida enquanto escrevo esse artigo, tem futuro duvidoso. De um lado temos São Pedro, que colabora com chuvas, ora sim e ora não, afetando a produtividade das lavouras em diversos estados produtores. De outro temos a movimentação da moeda americana, que tem intensa valorização frente ao real, porém com tendência de reverter este cenário a médio-prazo. Acrescenta-se ainda neste lado, a questão problemática da demanda pelo produto. As safras recordes nas Américas inundaram e inundarão o mundo com soja, e aproveitando a cotação barata, diversos países importadores aproveitam o momento para regularizar seus estoques. A questão a ser solucionada é se a demanda continuará crescente, em virtude das crises que os principais países importadores estão passando.

Os embarques com maiores volumes do grão são para China e Holanda. A primeira vem comprando elevados volumes da soja americana, recuperando seu estoque. A segunda é a porta de entrada para Europa, a recessão na Grécia, Espanha e Portugal, freiam o consumo. Os demais embarques para Indonésia, Irã, Rússia, Venezuela – que representam uma parcela significativa – são economias altamente sensíveis à volatilidade do petróleo.

Portanto, é hora de ter cautela e de minimizar riscos, os produtores que já tomaram ciência de que o ambiente para negócios arrefeceu, OK! Os que ainda não se atentaram, terão que tomar medidas contingenciais para evitar perdas futuras.

11_CRISES AFETAM A DEMANDA E RENTABILIDADE DO GRÃO (texto para download)

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Matheus Zani – Engenheiro Agrícola pela UNICAMP. Trabalha com crédito agrícola. Escreve sobre o mercado de commodities, crédito e política agrícola.

Sócio-Fundador da AgroTVM

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Como aumentar a produtividade dos canaviais

Por Thomaz Penteado

            Está mais do que claro que os canaviais brasileiros necessitam aumentar suas produtividades ou ao menos mantê-las para que o setor canavieiro consiga sair da crise que se encontra. Esta é só uma das questões que envolvem o problema da cadeia sucroenergética brasileira sendo, no entanto, fundamental para a sobrevivência da cana-de-açúcar.

            Existem inúmeros aspectos técnico-científicos que englobam tal assunto, sendo impossível abordá-los num único artigo e, portanto, tentarei resumir os principais tópicos que influenciam e determinam qual será a produtividade de uma lavoura de cana nos atuais moldes do país.

Figura 1. Canavial altamente produtivo
Figura 1. Canavial altamente produtivo 
  1. Condições Edafoclimáticas

O ambiente de produção deve ser o primeiro aspecto a ser analisado numa área de plantio ou replantio de cana, sendo o recurso natural solo o principal ator desse ponto de análise. Identificar o tipo de solo, sua fertilidade, características físicas e regime hídrico poderão determinar grande parte da produtividade da planta.

  1. Características Agronômicas

Em termos de planta, as características agronômicas mais latentes envolvem aspectos de fitotecnia, nutrição, controle fitossanitário e rotação de culturas. Traduzindo a frase anterior, a escolha da variedade correta para o ambiente de produção, seja esta cana-energia, resistente à seca ou a doenças, abrange a fitotecnia; uma adubação bem feita para cana-planta ou cana-soca, fertirrigação e aproveitamento dos subprodutos (torta, cinza e vinhaça) fazem a nutrição; combate de pragas, nematóides e uso de controle biológico atuam no controle fitossanitário e por fim a rotação de culturas com leguminosas, adubação verde ou mesmo o sorgo sacarino auxiliam na prevenção de problemas fitossanitários, condicionam a melhoria do solo e proporcionam o prolongamento da safra.

  1. Irrigação

A questão da irrigação nos canaviais vem sendo cada vez mais valorizada, principalmente depois de um ano terrivelmente seco na região sudeste. Existem inúmeras opções de métodos e sistemas de irrigação que podem ser utilizados para a cana, mas um que vem ganhando destaque é o gotejamento enterrado. Pelo gotejamento é possível fornecer água para a soqueira exatamente onde é necessário, nas raízes, evitando-se perda por evaporação e aumentando a eficiência da irrigação. Pode-se fazer a fertirrigação, particionando as áreas em setores e controlando exatamente a quantidade de água e adubo que será aplicado em cada época do ano, economizando assim água, energia e tempo, mas principalmente aumentando a produtividade e rentabilidade do produtor.

  1. Planejamento e Sistematização

O planejamento hoje está tão tecnificado que fica complicado de se monitorar uma grande área produtiva sem o uso de geotecnologias. A utilização das imagens de satélite aliadas aos softwares de geoprocessamento são procedimentos fundamentais para se otimizar e facilitar as operações agrícolas georreferenciadas e o uso de agricultura de precisão. Além disso, a utilização dos Vants ou Drones nas lavouras já é um caminho sem volta.

  1. Colheita Mecanizada

Coloco aqui a colheita sem desdenhar das outras operações agrícolas, tão importantes quanto à mesma, mas o agravante custo de produção e tecnologia embarcada me faz destacar tal operação. A colheita necessita de muitos cuidados para a preservação da produtividade do canavial, como evitar o pisoteio das soqueiras e as perdas visíveis que tanto ocorrem no campo. Além disso, o tópico mais importante aqui deve ser o treinamento e capacitação dos operadores para que os mesmos trabalhem conscientes de que o que fizerem no campo terá impacto direto no bolso deles. Para complementar, os conceitos de canteirização e ETC (Estrutura de Tráfego Controlado) prometem revolucionar a forma de se colher cana no Brasil, só nos restando esperar para ver.

  1. Etanol 2G

Por último, mas não menos importante aparece o etanol de segunda geração, já tratado no blog, que pretende dobrar a produção de etanol por hectare de cana (l/ha). Com a possibilidade de se verticalizar a produção através do etanol 2G, não só consegue-se evitar a abertura e ocupação de novas áreas como se produzirá mais litros de álcool por hectare de cana plantada, aumentando-se assim a produtividade do canavial em termos de etanol. Com isso, o setor poderá se tornar muito mais competitivo perante a gasolina, independente das condições políticas e regulatórias do setor.

Desta maneira, percebe-se que existe uma série de ações a serem tomadas pelo setor sucroalcooleiro que podem não só manter a produtividade atual como também elevá-la a outros patamares, permitindo a produção de mais ATR por kg de cana, mais litros de etanol por hectare e mais biomassa para a geração de energia elétrica. Obviamente que aspectos como linhas de crédito, reforma de canaviais e incentivos governamentais influenciam diretamente na produtividade, mas talvez não a produtividade que está ao alcance dos usineiros.

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Thomaz Penteado
Graduando em engenharia agrícola na UNICAMP.  Escreve sobre recursos hídricos, bioenergia, cafeicultura e agricultura de precisão.

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Produtividade, uma questão de sobrevivência

Por Vitor Higa

Diversas discussões sobre o atual panorama do aumento pela demanda de alimentos no mundo decorrente do crescimento contínuo da população mundial, retoma-se a importância da agricultura no cenário econômico global.

Levando-se em consideração a necessidade da preservação dos recursos naturais e das matas existentes, como elevar a produção de alimentos sem expandir de forma significativa a área plantada e o uso de recursos disponíveis ? A resposta é simples, o aumento da produtividade.

O conceito de produtividade é demonstrado na equação a seguir:

Produtividade

Portanto, para otimizar a produtividade é necessário elevar a produção de um determinado produto ou serviço, com menos recursos retirados da sociedade ou do planeta.

Antes de buscar soluções de como melhorar a produtividade, deve-se ter o conhecimento de que as organizações são constituídas de 3 elementos básicos, são eles:

  1. Recursos humanos
  2. Procedimentos
  3. Equipamentos e materiais

Analisando-se os 3 elementos acima, destaca-se o elemento dos recursos humanos ( elemento 1), pois são as pessoas que constroem uma organização, ou seja, são elas que possuem o conhecimento para o gerenciamento de sistemas; é o recurso humano que opera equipamentos (elemento 3), otimiza processos, desenvolve novos produtos e executa os procedimentos (elemento 2).

Diante desse fato exposto no parágrafo anterior, tem-se como base conceitual de um programa de aumento de produtividade de uma organização os seguintes pilares e comentários:

  • Aporte de conhecimento para elevação do nível da qualificação da mão de obra: retorno elevado, de longo prazo e gradual mas de difícil avaliação. É diretamente dependente da velocidade de aprendizado do ser humano, portanto, é dependente da vontade e capacidade das pessoas em aprender.
  • Aporte de capital para aquisição de equipamentos e materiais: é necessário disponibilidade financeira, apresenta retorno de curto prazo, porém baixo, inseguro e variável.

Assim sendo, levando-se em consideração apenas os fatores internos da organização, a produtividade só é elevada por meio de aporte de conhecimento e capital. Além disso, devido a velocidade de aprendizado do ser humano, um programa de aumento de qualidade e produtividade completo leva-se em torno 5 anos no mínimo para sua concretização.

Então, como executar esse tipo de programa o mais rápido possível ?

É necessário gerenciar a organização elevando-se a moral dos colaboradores, reconhecendo a cultura do ativo de conhecimento como fator principal para o crescimento da organização e criar mecanismos para evitar a saída de pessoas ( vazamento do ativo conhecimento). Além disso, a  elevação do nível da qualificação da mão de obra é realizada por meio de aquisição de conhecimento, educação contínua dos colaboradores (cursos, workshops, treinamentos), recrutamento de pessoas com elevado nível de instrução e auto-aprendizado durante a vida profissional do colaborador.

Aumentando-se a produtividade eleva-se a competitividade e consequentemente garante a sobrevivência da empresa. E para garantir a sobrevivência da empresa a longo prazo, deve-se cultivar uma equipe de pessoas competentes que saibam desenvolver e operar um sistema de gestão.

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Vitor Higa
Graduando em engenharia agrícola na UNICAMP. Trabalha em fabrica de vagões. Escreve sobre a questão de transporte de cargas via sistema ferroviário no Brasil. Aborda também as tendências em gestão corporativa e comportamento humano.

 

O profeta e a internet

Por Matheus Zani

Por que é tão difícil desenvolver a agricultura familiar no Brasil? Há uma política dirigida ao desenvolvimento das regiões onde se pratica agricultura? Os instrumentos do Estado são eficientes e capazes de alcançar os mais distantes rincões brasileiros?

Recentemente li em uma crônica:

O óbvio ulula para nós, clamando por reconhecimento, e, apesar disso, passamos invictos por ele, com uma superioridade imbecil e alvar…”, dizia Nelson Rodrigues a respeito que só os profetas enxergam o óbvio. As universidades, centros de pesquisa, associações, ONGS, estão cheias de profetas! – existe uma quantidade infinita de trabalhos que já foram e que, estão sendo desenvolvidos com o objetivo de identificar os percalços, as limitações e as necessidades dos pequenos agricultores. Todavia, ainda é muito difícil vermos profetas no congresso, se existem, estão escondidos ou acanhados.

Coincidentemente, outro Rodrigues, o ex-ministro e profeta, Roberto Rodrigues ilustra essa deficiência, desenhando a agricultura como um círculo vicioso perverso: se a atividade tem baixa renda, o produtor não consegue comprar tecnologia; sem tecnologia, a produtividade é baixa; com baixa produtividade, não se gera renda; e assim por diante.

É óbvio que uma atividade que não gera renda, nunca conseguirá proporcionar os retornos mínimos esperados a seus praticantes. A função de multiplicação de renda nunca será exercida e o jovem agricultor – o filho de pais agricultores – também não permanecerá no campo. É fato que o jovem somente permanecerá desenvolvendo sua atividade agropecuária, se, o retorno financeiro for capaz de assegurar o mínimo de suas necessidades pessoais, bem como para o avanço de sua produção, ou seja, é necessário garantir também acesso a internet, mobilidade e recreação. O jovem no campo quer ter uma proximidade maior com o urbano.

É consenso que a política agrícola brasileira vem sendo ampliada e aperfeiçoada ao longo das últimas décadas. O PRONAF é o principal instrumento da política agrícola, desde sua criação, nos anos 90, seu objetivo é facilitar o acesso dos pequenos produtores às novas tecnologias de produção via concessão de recursos financeiros subsidiados e promover a transferência de conhecimento através da assistência técnica.     No entanto, apesar da importância da agricultura familiar – principal fornecedor de alimentos para a população – a execução dessa política é falha e os órgãos competentes não estão preparados para gerir os programas e instrumentos.

O desafio é criar projetos que aumentem a produtividade no campo e na agroindústria, auferindo benefícios econômicos que asseguram novas conquistas sociais, ou em outras palavras: trazer a rentabilidade econômica para subir degraus sociais.

 O profeta e a internet (download do texto)

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Matheus Zani

Graduando em engenharia agrícola na UNICAMP. Trabalha com crédito agrícola. Escreve sobre o mercado de commodities, crédito e política agrícola.

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